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Atualmente se fala muito em adolescência, em crise
adolescente. As tentativas de lançar luz sobre o fenômeno trazem
consigo uma infinidade de questões, atuais e complexas, que
envolvem, sobretudo, os jovens de nossa sociedade. É comum
relacionarmos adolescência com drogas, sexo, educação,
problemas de imposição de limites, violência, delinqüência,
etc. Mas afinal! O que significa adolescência? É possível uma
determinação consensual a respeito desse conceito? Podemos
pensar a adolescência hoje como pensávamos tempos atrás?
Existe,
na literatura especializada, uma vasta bibliografia que busca
definir o fenômeno da adolescência, contudo, nela encontramos inúmeras
reflexões que apontam para controvérsias passíveis de debates e
questões interessantes.
Muitas
tentativas de resposta já foram produzidas, porém, nenhuma delas
conclusiva. Etimologicamente falando, adolescência provém do
verbo “adolescerê”, que significa brotar, fazer-se
grande. Em geral, acredita-se que o fenômeno da adolescência é
um processo de mudança que marca a passagem da infância para a
fase adulta, esse processo é sinal distintivo das sociedades
consideradas menos evoluídas, pois, em inúmeras tribos, podemos
identificar ritos de passagem que denotam esta operação
definitivamente.
Com
efeito, mesmo em termos de idade, não existe um consenso
determinando o período exato de duração da adolescência. Mesmo
assim, vários autores preferem concordar com a idéia de que a
fase adolescente inicia depois da infância, por volta dos 12
(dose) anos e termina por volta do 18 (dezoito). Em termos de lei,
semelhante à posição anterior, levando em conta o estatuto da
criança e do adolescente, adolescência seria o período de vida
que dura entre – aproximadamente – 12 (dose) anos e os 18
(dezoito) anos de idade. Essa afirmação pode até ser
interessante em termos de lei, porém, não é nada esclarecedora
para os profissionais que lidam com adolescentes, exatamente pela
complexidade e pelas controvérsias importantes que são
apresentadas pelo referido fenômeno.
O que se verifica é uma verdadeira indefinição
sobre o conceito de adolescência. Encontramos
posições que são diversas das primeiras, são posições de
autores que não privilegiam a idade como um critério exato e rígido
que determinaria o referido período, para eles, a adolescência não
é uma fase natural do crescimento humano, ela diz respeito a um
processo cultural, assim referida, pode ser considerada como um
fenômeno moderno que, aliás, surgiu e se desenvolveu nos E.U.A a
partir do início do século XX. Essa posição, que também pode
questionada, propõe uma compreensão da adolescência como uma
invenção da modernidade. Atualmente verifica-se uma tendência
em concordar com essa idéia, outros autores, todavia, preferem
concordar apenas em parte.
O
psicanalista Francisco Settineri (1999), tratando da “adolescência
como posição subjetiva”, é um dos que fazem parte desta última
categoria. Em seu texto, apresenta um dado esclarecedor sobre o
que estamos tratando, sobretudo, quando identifica, outrora,
preocupações dos pais em relação aos jovens. Destarte, aponta
como referência a Comédia “As nuvens”, de Aristófanes,
lembrando que, na primeira encenação data 423 A. C., logo no
inicio do texto, pode ser identificada a queixa de Strepsíades a
respeito de seu filho Fidípides, quando este passa a contrair dívidas
em que seu pai, deveras preocupado, terá que pagar para sustentar
os caprichos do filho. Fidípides gasta com cavalos, cocheiras. O
Pai reclama: “coitado de mim, não posso dormir atormentado
pelas despesas contraídas por meu filho (...). [ele exibe] “sua
longa cabeleira (...) guia um carro, sonha com cavalos, enquanto
eu estou minguando ao ver a lua trazendo os dias dos vencimentos,
ao mesmo tempo que as dívidas e os juros se amontoam” (Ibidem.,
999, p. 169)
O fato
é que a preocupação com os filhos jovens, embora diferentes das
de hoje, é milenar, portanto, a adolescência, vista nesta
perspectiva, não pode ser considerada como um fenômeno
exclusivamente moderno ou pós-moderno. Outrora, a adolescência,
embora não sendo apresentada enquanto processo de mudança ou
fase que a determinasse, alguns comportamentos eram marcadamente
e, até certo ponto, determinantes dos homens jovens. A crise na
adolescência como a entendemos hoje, naquele período, não era
referenciada.
Voltando
ao nosso tempo, uma primeira ressalva: claro está que as características
físicas e biológicas devem ser consideradas enquanto
“marcas” de transição entre a vida infantil e a adulta, o
que não significa dizer que a determinação da fase adolescente
seja definitivamente e exclusivamente reconhecida
por intermédio da idade e pelas alterações orgânicas. Para se
pensar em adolescência, é preciso considerar, de modo especial,
os aspectos psicológicos, fatores sócio-culturais, cognitivos,
etc. Outrossim, é preciso pensar no contexto, ou seja, refletir
sobre o mundo - o cenário - em que o jovem está inserido.
Na
verdade a adolescência deve ser pensada em três condições:
enquanto desenvolvimento biológico do indivíduo, aspectos psicológico,
social e cultural.
Adolescência
e crise
O
psicanalista francês Charles Melman (1996) nos lembra que a noção
de crise associada a esse período de transição se encontra
essencialmente em nossa cultura. Ele afirma que “não há nenhum
sinal dela, enquanto crise psíquica, nos textos das culturas
gregas e latinas, onde seria um simples período de introdução a
vida social”. A crise psíquica - na adolescência - como
um processo de transição entre um mundo (infantil) e outro
(adulto), pode ser assinalada como um fenômeno característico
das sociedades pós-industriais capitalistas. Nelas, não
encontramos ritos de passagem responsáveis pela demarcação de
uma fase e outra. A ausência de cerimônias reguladoras,
verificadas em sociedades menos evoluídas do que a nossa,
certamente, favorece a crise psíquica que conhecemos na fase
adolescente.
A crise
na adolescência, identificada, então, nos jovens de nossa
sociedade, seria determinada em razão de uma sociedade industrial
tecnicamente desenvolvida, já que, existem inúmeras
dificuldades, as quais os jovens terão que se deparar e enfrentar
para que possam ingressar no mundo dos adultos (do trabalho),
deste modo, exercer seu poder de sustento básico, se for o caso,
instituir família, responder por seus atos como cidadão adulto.
Logo, alcançaria uma posição de certa liberdade e autonomia
pela possibilidade de ter seu emprego, salário, etc, o que
significa, teoricamente, não depender mais financeiramente de
seus Pais.
Na
verdade, porém, as sociedades modernas - ou pós-modernas -
tornaram-se complexas, assim, os jovens precisam, cada vez mais
cedo, qualificar-se para o mercado de trabalho que, aliás, vem se
tornando cada vez mais técnico e exigente.
Levando
em conta o cenário em que vivemos, o jovem de nossa sociedade,
sendo sensível aos acontecimentos, percebe e sente, como ninguém,
a(s) crise(s) da qual (nós adultos, também) vivemos; seja ela de
valores, educacional, ética, moral, econômica, política, etc.
Outrossim, dentre outras coisas, percebe e vivencia a violência
cotidiana, muitas vezes banalizada, o individualismo e consumismo
exacerbado, a problemática das drogas, o stress de cada dia e o
desemprego.
Em
última análise, num País como o nosso, em que muitas crianças
ingressam demasiadamente cedo no mundo do trabalho, essa questão
merece ser considerada. As referidas crianças das quais estou
falando, diz respeito a uma grande parcela de crianças
brasileiras que vivem em condições precárias, miséria, são
elas, muitas vezes, que auxiliam na sobrevivência de suas famílias,
são pequenos trabalhadores braçais. Por todas as implicações,
efeitos e conseqüências que esta situação suscita, essas crianças
não sofrem crise psíquica, característica da adolescência.
Portanto, levando em conta as questões acima referidas,
questiona-se: no mundo em que vivem essas crianças, existe
adolescência? Existe fase característica que determina a
passagem do mundo infantil para o mundo adulto? De qual adolescência
a maioria das teorias tratam?
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